terça-feira, 22 de novembro de 2011

Os olhos que sorriam - narração entregue em aula


Naquela manhã nublada de março, tudo aconteceu como de costume, exceto por um mínimo detalhe: uma simples variação do estado mental doentio em que me encontrava. Uma pequena, porém muito significativa diferença que passaria despercebida pela maioria, já que nem todos são capazes de distinguir as nuances cinzas do cotidiano.
Tudo se resumia a um gesto involuntário, uma adorável distensão labial que escondia sentimentos profundos por entre seus caminhos. Aquele labirinto dentro de mim perpassava algo que se encontrava quase esquecido no meu ser: a felicidade. Isso se devia a uma só pessoa, enquanto tantas outras me cercavam.
E, quem diria?! Havia muitas surpresas sobre quem eu poderia ser. A ironia, minha fiel companheira, dessa vez me reservava algo além do comum. Não estava a rir-se de algo ruim que me tinha acontecido, mas sorria docemente da minha ingenuidade. Aquela ingenuidade tão complexa que envolvia a minha descrença.
Uma construção que se elevara diariamente, um muro que me impedia de ver e ser vista. E agora, era quase como se Deus estivesse descendo de seu confortável trono só para zombar da minha falta de fé. Junto com ele, riam de mim todos os outros de quem eu havia zombado um dia por acreditar cegamente. A ideia que eu tinha fixa em minha mente de repente ia se transformando em nada.
Tal niilismo me assustava, devo confessar. Levara-me a vida toda para construir aquilo que hoje se tornava pó. As lágrimas que derramei, as vidas nas quais me espelhei, as pessoas a quem amei, a solidão que me foi dada de presente, tudo isso antes parecia intransponível. E como num truque de baralho, a vida me tinha enganado. Ah, a ingenuidade...
 Por hora, só me restava um questionamento: quando teria eu, a chance de ter uma conversa com aquela nova e simpática figura no espelho? Só havia uma alternativa, e ela não me agradava. Intervenção. Era preciso que um dos lados forçasse para que aquele encontro acontecesse. Abandonar minha fortaleza, cômoda e irreal, era quase uma certeza de caos e destruição. A anestesia precisava deixar de fazer efeito, com certeza as dores viriam. Mas para o processo de recuperação, não havia outra saída.
Ainda me lembro, o coma era tão mais simples, só era preciso respirar. Contudo, minha vida inesperadamente sussurrou ao meu ouvido, me invocando a despertar. Já havia ignorado seu chamado antes, entretanto, como um veneno que me agradava, sua voz agridoce foi me enfeitiçando. Não conseguia mais fugir. Era a hora do Apocalipse: meu cérebro e meu coração, que travavam uma guerra eterna, finalmente teriam seu momento decisivo. Eu sabia, com toda a certeza, que o que ficasse decidido nesses dias mudaria minha vida para sempre.


- Anna Daniela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário